Mostrar mensagens com a etiqueta EducaçãoSociedadeRede. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta EducaçãoSociedadeRede. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Educação aberta para além do óbvio: práticas educacionais baseadas em Recursos Educacionais Abertos

A crescente aceleração da produção e circulação de conhecimento, associada à expansão das tecnologias digitais, tem vindo a colocar desafios aos modelos tradicionais de ensino e aprendizagem. Neste contexto, a educação aberta tem-se afirmado como uma forma de promover o acesso alargado ao conhecimento e o uso de práticas baseadas na partilha e reutilização de recursos educativos.

O presente trabalho, no âmbito da disciplina de Educação e Sociedade em Rede, tem como objetivo identificar e analisar práticas educacionais abertas inovadoras que demonstrem impacto documentado na disseminação do conhecimento e que se baseiem no uso e reuso de Recursos Educacionais Abertos, em conformidade com o critério 5R definido por David Wiley.

A seleção das práticas analisadas obedece a critérios de coerência conceptual, implementação efetiva e relevância pedagógica, integrando iniciativas de âmbito institucional e nacional, bem como experiências com projeção internacional.

OpenLearn, da The Open University (Reino Unido)

A OpenLearn é a plataforma de aprendizagem aberta da The Open University, criada em 2006 com o objetivo de disponibilizar conteúdos universitários em acesso aberto a públicos diversos, funcionando como um ambiente de aprendizagem autónoma e não formal. Atualmente, disponibiliza mais de 800 cursos gratuitos e regista milhões de utilizadores/as por ano.

O acesso à OpenLearn é livre, e a maioria dos conteúdos não exige qualquer processo de inscrição formal, o que reduz barreiras de entrada e facilita o envolvimento em percursos flexíveis de estudo. As pessoas utilizadoras podem explorar unidades modulares, cursos curtos e recursos isolados de acordo com os seus interesses, necessidades e ritmos de aprendizagem, reforçando a autonomia e a personalização do percurso formativo. A plataforma disponibiliza, entre outros, cursos e unidades modulares do ensino superior, materiais multimédia com atividades e exercícios de autoavaliação, bem como percursos de aprendizagem organizados por áreas do conhecimento, maioritariamente adaptados a partir de unidades curriculares formais da Open University.

A OpenLearn configura uma prática educacional aberta consolidada, com impacto documentado na disseminação do conhecimento à escala internacional, ancorada numa universidade pública com uma missão histórica de democratização do acesso ao ensino superior e de promoção da aprendizagem ao longo da vida. Estudos longitudinais evidenciam que uma proporção significativa das pessoas utilizadoras da OpenLearn avança para pedidos de informação ou inscrição em cursos formais e que estudantes que recorrem à plataforma apresentam, em média, taxas de progressão e sucesso ligeiramente superiores, quando comparados com pares que não utilizam este tipo de recursos (Law & Jelfs, 2016).

Casa das Ciências (Portugal)

A Casa das Ciências é uma plataforma portuguesa dedicada à produção, curadoria e disseminação de recursos educativos digitais, com particular incidência nas áreas das ciências, matemática e tecnologia. Dirige-se sobretudo a docentes do ensino básico e secundário, assumindo também relevância na formação inicial e contínua de professores/as, bem como no apoio a práticas educativas fundamentadas cientificamente.

A utilização da plataforma pressupõe o envolvimento ativo de docentes enquanto utilizadores/as e produtores/as de recursos, promovendo uma lógica de comunidade de prática profissional. Os materiais podem ser pesquisados, descarregados e integrados em múltiplos contextos educativos, permitindo a sua adaptação às necessidades específicas de cada turma, nível de ensino ou objetivo de aprendizagem. Disponibiliza, entre outros, recursos educativos digitais para uso direto em contexto letivo, incluindo fichas de trabalho, propostas de atividades experimentais, simulações, textos de apoio e materiais multimédia, produzidos por docentes e especialistas/as e sujeitos a processos de curadoria científica e pedagógica, bem como materiais concebidos para apoio à prática letiva e à formação docente.

A Casa das Ciências configura uma prática educacional aberta situada, com impacto reconhecível no contexto educativo português. Trata-se de uma iniciativa estável, sustentada no tempo, que articula produção de conhecimento didático, partilha entre pares e reutilização de recursos, indo além de projetos pontuais ou experiências isoladas. Embora tenha menor visibilidade na literatura científica internacional, quando comparada com iniciativas anglo-saxónicas como a OpenLearn, o reconhecimento institucional e a adoção recorrente dos recursos por docentes em todo o país evidenciam um impacto pedagógico consistente. Este caso demonstra que a educação aberta pode emergir de comunidades docentes locais, articulando qualidade científica, partilha em torno de uma infraestrutura digital comum, contribuindo para a disseminação do conhecimento no sistema educativo português e reforçando a capacidade de docentes acederem, adaptarem e integrarem materiais de ensino em diferentes contextos educativos.

Open Textbooks Library

A Open Textbooks Library é um repositório internacional dedicado à disponibilização, adoção e reutilização de manuais académicos abertos, sobretudo no contexto do ensino superior. A plataforma foi criada com o objetivo de apoiar docentes e instituições na substituição de manuais comerciais por alternativas em acesso aberto, reduzindo barreiras económicas e promovendo práticas educativas mais sustentáveis.

A utilização da plataforma é simples e orientada para a prática docente, permitindo que professoras e professores pesquisem manuais por área disciplinar, nível de ensino ou instituição produtora, consultem informações sobre licenças e formatos disponíveis e adotem ou adaptem os manuais nos seus próprios cursos. A plataforma reúne manuais académicos completos de múltiplas áreas disciplinares, produzidos por universidades, consórcios académicos e iniciativas públicas, acompanhados de informação clara sobre licenças, formatos e possibilidades de reutilização, bem como de avaliações de docentes que os adotaram, funcionando, assim, como infraestrutura de apoio à decisão pedagógica e à implementação de Recursos Educacionais Abertos em contextos curriculares formais.

A Open Textbooks Library constitui uma prática educacional aberta robusta, centrada nos manuais académicos enquanto Recursos Educacionais Abertos, cuja relevância pedagógica no ensino superior é amplamente reconhecida. Estudos empíricos documentam taxas significativas de adoção institucional de manuais abertos e poupanças económicas relevantes para estudantes, sem prejuízo dos resultados de aprendizagem (Hilton et al., 2016; Pitt et al., 2020). Estes dados evidenciam uma disseminação efetiva do conhecimento, ao tornar conteúdos académicos essenciais acessíveis a públicos mais amplos e ao facilitar a sua integração sustentada em práticas curriculares formais.


Reflexão final 

A análise das três iniciativas consideradas – OpenLearn, Casa das Ciências e Open Textbooks Library – permite compreender as práticas educacionais abertas como um conjunto de escolhas pedagógicas, organizacionais e jurídicas que vão muito além da simples disponibilização gratuita de conteúdos online. A seleção destas iniciativas procurou deliberadamente afastar-se de exemplos mais óbvios e amplamente referidos, privilegiando recursos que, embora nem sempre centrais no discurso dominante sobre educação aberta, evidenciam coerência conceptual, impacto documentado e relevância pedagógica nos seus contextos específicos de atuação. Em comum, estas práticas estruturam-se em torno de recursos educacionais abertos concebidos para serem usados, adaptados e redistribuídos, em consonância com o modelo das 5R de David Wiley (Wiley, 2014).

Neste sentido, as práticas analisadas respondem diretamente ao desafio da aceleração e da obsolescência do conhecimento, ao privilegiar modelos de circulação, reutilização e recontextualização que atribuem valor ao conhecimento em função dos seus usos, públicos e contextos, e não apenas da sua validação formal.

Do ponto de vista pedagógico, os três casos analisados evidenciam modalidades distintas de inovação. A OpenLearn aproxima aprendizagem informal e formal, ao abrir conteúdos universitários a públicos alargados e ao documentar impactos em termos de progressão académica. A Casa das Ciências destaca o papel de comunidades docentes locais na produção e circulação de recursos, apoiando diretamente a prática letiva no contexto português. A Open Textbooks Library, por sua vez, centra a inovação na transformação de manuais académicos em recursos abertos, com efeitos mensuráveis na redução de custos para estudantes e na flexibilidade curricular no ensino superior. Em todos os casos, a possibilidade de adaptação e recontextualização dos materiais constitui um elemento central do seu potencial transformador.

Embora não seja necessário um aprofundamento técnico das licenças, importa reconhecer que a operacionalização das 5R depende de licenças abertas, como as diferentes variantes de Creative Commons, cujas cláusulas condicionam os usos permitidos e revelam tensões entre abertura plena e estratégias institucionais de sustentabilidade. Estas tensões evidenciam que a educação aberta não é um modelo neutro ou homogéneo, mas um campo atravessado por decisões políticas, pedagógicas e organizacionais.

Por fim, importa sublinhar que estas plataformas devem ser entendidas como meios e não como fins em si mesmas. O que está em causa não é apenas disponibilizar conteúdos, mas reconfigurar relações entre instituições, docentes, estudantes e conhecimento. Quando apropriadas pedagogicamente, as práticas educacionais abertas podem contribuir para ampliar o acesso a recursos de qualidade, promover a colaboração entre pares e reduzir barreiras económicas, reforçando a dimensão social e transformadora da educação.

Infografia criada no NotebookLM

Referências bibliográficas (APA 7.ª edição)

Casa das Ciências. (n.d.). Plataforma Casa das Ciências. https://www.casadasciencias.org

Hilton, J., Fischer, L., Wiley, D., & Williams, L. (2016). Maintaining momentum toward graduation: OER and the course throughput rate. International Review of Research in Open and Distributed Learning, 17(6), 18–27. https://doi.org/10.19173/irrodl.v17i6.2686

Inamorato dos Santos, A. (2016). Opening up education: A support framework for higher education institutions. Publications Office of the European Union. https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/JRC101436

Law, P., & Jelfs, A. (2016). Ten years of open practice: A reflection on the impact of OpenLearn. Open Praxis, 8(2), 143–149. https://doi.org/10.5944/openpraxis.8.2.283

Open Textbooks Library. (n.d.). Open Textbooks Library. https://open.umn.edu/opentextbooks

Open University. (n.d.). OpenLearn: Free learning from The Open University. https://www.open.edu/openlearn


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Reticularização e Datificação dos Processos Educativos

 




Apresento uma reflexão crítica individual, na qual retomo os vídeos analisados na UC de Educação e Sociedade em Rede e a recensão do grupo de trabalho da atividade 4, para aprofundar algumas questões que considero centrais. Esta análise procura problematizar os discursos sobre educação digital e inteligência artificial, confrontando-os com os desafios reais da equidade, do bem-estar e da responsabilidade pedagógica. Partindo dos materiais trabalhados e dos textos teóricos da UC, proponho uma leitura mais situada e reflexiva sobre o papel da educação numa sociedade em rede, assumindo uma posição crítica e pessoal, informada pelo percurso desenvolvido ao longo da unidade curricular.

Educação, tecnologia e sentido crítico numa sociedade em rede

A análise conjunta dos vídeos discutidos pelo grupo, The Machine is Us/ing Us (Wesch, 2007), Education 4.0 | Transforming the future of education (Jisc, 2019) e AI and the future of education (Plastico Film, 2023) evidencia uma preocupação comum com a adequação dos modelos educativos face às transformações tecnológicas, sociais e culturais em curso. Independentemente do foco específico de cada vídeo, emerge de forma consistente a ideia de que a educação se encontra num momento de transição, marcado pela digitalização, pela inteligência artificial e pela reorganização dos modos de produção e circulação do conhecimento.

Um primeiro eixo transversal prende-se com a crítica ao modelo educativo tradicional, fortemente influenciado por lógicas industriais de organização do ensino. A centralidade da transmissão de conteúdos, da padronização e da avaliação uniforme surge como progressivamente desajustada num contexto em que a informação é abundante, mutável e distribuída em rede, tal como é ilustrado em The Machine is Us/ing Us (Wesch, 2007), quando Michael Wesch evidencia a transição dos/as utilizadores/as, anteriormente consumidores passivos, para participantes ativos/as na construção do conhecimento online. Esta leitura converge com Tony Bates (2017), que sublinha que a transformação digital não se resume à introdução de novas tecnologias, mas implica uma revisão profunda das conceções de aprendizagem, currículo e papel docente.

Outro ponto recorrente nas análises do grupo é a reconfiguração do conhecimento enquanto processo dinâmico, relacional e situado. Aprender deixa de significar acumular informação para passar a envolver interpretação crítica, produção de sentido e capacidade de aprender ao longo da vida. Esta perspetiva articula-se com os contributos de Teixeira, Bates e Mota (2019), no âmbito do Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta, que enfatiza a aprendizagem em rede, a construção social do conhecimento e a necessidade de desenvolver competências cognitivas, sociais e éticas num ecossistema digital complexo. O vídeo Education 4.0 (Jisc, 2019) reforça esta ideia ao associar a evolução dos modelos educativos às transformações tecnológicas e às exigências de adaptação contínua.

A tecnologia e a inteligência artificial surgem, neste contexto, como mediações com potencial educativo, mas também como fontes de novos desafios. Os vídeos analisados apontam possibilidades de personalização da aprendizagem, apoio a diferentes perfis de estudantes e flexibilização dos percursos educativos, em particular em AI and the future of education (Plastico Film, 2023), onde são apresentados exemplos de tutores digitais e sistemas de apoio baseados em IA. No entanto, o grupo reconheceu que estas tecnologias não substituem a dimensão humana da educação. A relação pedagógica, o acompanhamento, o sentido crítico e a responsabilidade ética permanecem elementos centrais, em consonância com Bates (2017) e com os contributos de Teixeira, Bates e Mota (2019).

Do ponto de vista crítico, foi também sublinhado que muitos discursos sobre inovação educativa tendem a assumir um tom excessivamente otimista, por vezes pouco atento às condições reais de implementação. Questões como a desigualdade de acesso, a formação de professores e professoras, a sustentabilidade institucional e os impactos no bem-estar das pessoas aprendentes nem sempre são suficientemente aprofundadas nos vídeos. Os textos de Bates (2017) e de Teixeira, Bates e Mota (2019) ajudam a enquadrar estas limitações, ao evidenciar que a transformação educativa exige políticas públicas, regulação e uma visão sistémica que vá além da adoção tecnológica.

Em síntese, o trabalho desenvolvido pelo grupo mostra que pensar a educação numa sociedade em rede implica equilibrar inovação e prudência crítica. A tecnologia pode ampliar as possibilidades educativas, mas apenas quando integrada em projetos pedagógicos coerentes, eticamente orientados e socialmente responsáveis. Mais do que preparar para ferramentas específicas ou para profissões transitórias, a educação é chamada a formar pessoas capazes de compreender, questionar e intervir num mundo cada vez mais mediado por sistemas digitais e algorítmicos, tal como problematizado nos três vídeos analisados e aprofundado nos referenciais teóricos trabalhados na UC de Educação e Sociedade em Rede.


Referências

Bates, A. W. (2017). Educar na era digital: Design, ensino e aprendizagem. Artesanato Educacional.

Grajek, S., & EDUCAUSE IT Issues Panel. (2020). How colleges and universities are driving to digital transformation today. EDUCAUSE Review.

Jisc. (2019). Education 4.0: Transforming the future of education [Vídeo].

Plastico Film. (2023). AI and the future of education [Vídeo].

Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1), 107–126. https://doi.org/10.5944/ried.22.1.22288

Wesch, M. (2007). The machine is us/ing us [Vídeo].



sábado, 6 de dezembro de 2025

Autenticidade e Transparência na Era Digital: Entre a Simulação e a Responsabilidade Ética

 


Foi-nos proposto pelo professor António Teixeira, no âmbito da unidade curricular Educação e Sociedade em Rede, uma discussão e reflexão coletiva sobre como a transformação tecnológica digital está a reconfigurar as noções de autenticidade, transparência e confiança nas relações humanas. Este texto procura, por um lado, refletir o conjunto de argumentos que foram sendo apresentados no debate da turma e, por outro, construir uma leitura própria da análise efetuada sobre os conceitos. Procura ainda compreender como estas questões, intensificadas pela cultura digital, desafiam a pedagogia contemporânea, particularmente em contextos de e-learning.

Neste ecossistema marcado pela aceleração informacional e pela mediação algorítmica, torna-se necessário compreender como a presença humana se redefine e que exigências éticas emergem num mundo em que a simulação se torna parte integrante da vida quotidiana.


Da Presença Física ao Eu Digital

A transformação tecnológica digital não acrescenta apenas um novo cenário às relações humanas, altera o próprio solo onde assentavam noções como autenticidade, transparência e confiança. O que antes dependia da presença física, do corpo, do rosto e da convivência continuada é hoje mediado por plataformas, algoritmos e dispositivos, que reconfiguram aquilo que vemos, mostramos e julgamos verdadeiro. A presença digital tornou-se uma extensão inevitável da vida quotidiana, um espaço onde procuramos reconhecimento e construímos parte das nossas relações.

A reflexão de Walter Benjamin sobre a aura, realçada por alguns colegas, embora situada noutro contexto, ajuda-nos a perceber esta transição. Se a autenticidade era antes entendida como unicidade situada num tempo e lugar irrepetíveis, hoje vivemos num ambiente em que perfis, avatares e conteúdos podem ser editados, movidos, reenquadrados. O “eu” deixa de ser apenas alguém que está e passa a ser algo que se multiplica e se redistribui.

Será caso para questionar, como podemos sustentar a autenticidade num ambiente em que a presença se desmaterializa e o “eu” circula como representação? Esta é uma questão que desafia também a pedagogia digital, que depende cada vez mais de ambientes onde a presença é, inevitavelmente, mediada.


Simulação, Coerência e o Eu que Circula

É sobretudo Jean Baudrillard quem oferece uma lente útil para compreender a atualidade. Na lógica dos simulacros, o digital não imita o real, substitui-o. Perfis editados, presenças polidas e até identidades geradas por inteligência artificial tornam-se versões mais sedutoras e convincentes do que a experiência vivida. O “eu” digital surge como uma versão nossa, diferente daquela que se mostra na vida presencial. Assim, a autenticidade não desaparece, mas torna-se um processo: constrói-se, negocia-se e, por vezes, encena-se.

Baudrillard propõe que, no regime de simulacro, a fronteira entre representação e realidade se torne indistinguível, o que ajuda a compreender a instabilidade da identidade digital.


A Aceleração e a Ambiguidade da Transparência

Se Baudrillard nos ajudou a pensar a simulação, Paul Virilio chamou a atenção para o impacto da velocidade na experiência humana. A circulação instantânea de informação comprime tempo e espaço, dificultando a maturação das relações, a reflexão e a profundidade. A autenticidade, que requeria presença física, demora e continuidade, é substituída por respostas rápidas, reações imediatas e presenças constantemente atualizadas para não perderem visibilidade.

Hoje, grande parte das interações ocorre em ambientes mediados por plataformas que organizam o que vemos através de processos invisíveis. Aquilo que vemos não é o “mundo” tal como ele é, mas o resultado de escolhas num sistema orientado para maximizar a interação.

Será caso para nos lembrarmos da frase atribuída a Frida Kahlo: "Onde não puderes amar, não te demores", que sugere a importância de reconhecer onde existe espaço para presença verdadeira.

Será possível, neste cenário, falar de transparência sem confundir visibilidade com compreensão? E, no contexto do e-learning, como equilibrar a transparência necessária ao processo educativo com a proteção da autonomia e da privacidade?

A transparência também se transforma. Aquilo que se apresenta como clareza, transforma-se muitas vezes em exposição rápida e fragmentada. Vemos mais, mas compreendemos menos. A comunicação digital reduz canais essenciais das relações humanas. Emojis substituem expressões, indicadores substituem o olhar, imagens simulam proximidade sem que esta necessariamente se concretize.


Arquiteturas Algorítmicas e Reconfiguração da Confiança

As plataformas digitais não são neutras. Integram formas de viés algorítmico que organizam o que vemos e o que permanece invisível. Esta arquitetura informacional molda a própria experiência da autenticidade, influenciando a forma como nos apresentamos e como interpretamos a presença dos outros.

Neste contexto, a confiança desloca-se. Deixa de se apoiar sobretudo no corpo, no olhar e na convivência e passa a depender de métricas visuais: seguidores, gostos, comentários, indicadores de participação. Estes sinais podem facilitar encontros entre desconhecidos, mas convertem a confiança numa operação calculada, vulnerável à manipulação e ao artifício. Sem rosto e sem olhar, a confiança perde uma das bases mais profundas do reconhecimento humano.

No e-learning, esta tensão é particularmente visível. Como cultivar confiança educativa quando as interações emergem num ambiente filtrado, hierarquizado e parcialmente opaco? Isto manifesta-se, por exemplo, quando uma participação numericamente elevada num fórum pode sugerir envolvimento, mas não traduz necessariamente uma interação significativa ou uma presença educativa consistente.


Autenticidade como Responsabilidade Ética

A autenticidade não desapareceu. Muitas pessoas procuram no digital, formas de expressão e vínculos que não encontram noutros espaços. Desta forma, podemos dizer que se reconfigurou. Além disso, tornou-se uma responsabilidade ética. Ser autêntico hoje não implica exposição total, mas coerência num ambiente marcado pela simulação, pela velocidade e pelo condicionamento algorítmico. Implica saber o que mostrar e o que preservar, reconhecer os limites da visibilidade e agir com consciência dos efeitos das nossas práticas digitais nos outros.

A transparência, por sua vez, não exige exposição total. Exige contextualização, intenção e verdade situada. A preservação de zonas de opacidade como a privacidade, o silêncio e os limites, pode ser não um obstáculo, mas a condição necessária para uma relação autêntica e humana.

É aqui que a pedagogia do e-learning se pode tornar decisiva. Cabe-lhe criar condições para que a presença, mesmo mediada, recupere densidade. Cabe-lhe ensinar literacia crítica, promover ritmos de atenção mais lentos e incentivar práticas de convivência digital que resistam à lógica da aceleração. Estas exigências convocam também escolhas de design pedagógico que privilegiem interações com sentido, promovam ritmos de aprendizagem sustentados e reduzam a dependência de métricas superficiais de desempenho.

 

Em síntese, a transformação tecnológica digital coloca a autenticidade e a transparência em crise, mas essa crise é também uma oportunidade. Permite repensar presença, responsabilidade, relação e confiança num ecossistema híbrido e acelerado. Talvez a autenticidade contemporânea não seja aquilo que “somos”, mas aquilo que conseguimos sustentar eticamente nas redes que habitamos.

E talvez a transparência não precise de mostrar tudo, mas de oferecer condições para que a confiança seja possível. Num tempo em que quase tudo pode ser transformado em dados, importa reafirmar uma ética que reconheça limites, porque nem tudo precisa de ser rastreado e avaliado. Há dimensões da presença humana que só florescem quando não estão sob o olhar permanente do dispositivo, e é nelas que se joga a possibilidade de preservar, reinventar e educar para uma autenticidade verdadeiramente humana.


Bibliografia

Baudrillard, J. (2002). BigBrother: Telemorfose e criação de poeira. Revista FAMECOS, (17), 7–17. 

Baudrillard, J. (2005). Carnaval/Cannibal. Revista FAMECOS, 12 (28), 7-17. 

Mambrol, N. (2018, February 26). Key theories of Jean Baudrillard. Literary Theory and Criticism

Mambrol, N. (2018, February 24). Key theories of Paul Virilio. Literary Theory and Criticism


Imagem criada com recurso à IA (CANVA)