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sábado, 15 de novembro de 2025

Cibercultura de Pierre Lévy

 Cibercultura de Pierre Lévy

Publicado em 1997, o livro Cibercultura apresenta a análise de Pierre Lévy sobre as transformações sociotécnicas associadas à expansão do digital. O autor examina como o ciberespaço redefine práticas culturais, cognitivas e sociais, adotando uma abordagem que evita determinismos e valoriza a ação e interpretação dos sujeitos. A obra está organizada em três partes: Definições, Proposições e Problemas, clarificando conceitos, formulando princípios e discutindo tensões e limites. Lévy reconhece os riscos e ambiguidades, mas sustenta uma perspetiva predominantemente otimista, baseada na convicção de que o digital possibilita novas formas de comunicação, criação e participação numa sociedade marcada por fluxos informacionais inéditos.


Definição de Cibercultura

Neste contexto, cibercultura refere-se ao conjunto de técnicas, práticas, valores, atitudes e formas de organização social que emergem com o desenvolvimento do ciberespaço. O ciberespaço é definido como um espaço de comunicação resultante da interligação global de computadores e memórias digitais, abrangendo todos os sistemas digitais de criação, registro, transmissão e simulação de informação.

A virtualização, conceito central no pensamento de Lévy, não implica substituição do real. Amplia o campo das possibilidades e permite que mundos virtuais funcionem como ambientes partilhados, onde as pessoas utilizadoras exploram, atualizam e transformam modelos digitais. Quando estas interações modificam o próprio ambiente, o mundo virtual torna-se suporte de criação e de inteligência coletiva.

A cibercultura é estruturada por três princípios: a interligação das redes e das pessoas, a formação de comunidades virtuais e o desenvolvimento da inteligência coletiva. A estes princípios associa-se uma forma particular de universalidade que Lévy designa como universal sem totalidade. O ciberespaço apresenta uma tendência para incluir qualquer pessoa, sem exigir uniformidade cultural ou interpretativa. Como afirma o autor, “o ciberespaço não é desordenado, exprime a diversidade do humano” (Lévy, 1997, p. 124). A imagem de “dar as mãos à volta do mundo” (Lévy, 1997, p. 123) sintetiza este universal plural e dinâmico.


Os exemplos subsequentes não se encontram no livro, com exceção da WWW, uma vez que Cibercultura foi publicado em 1997, durante a expansão inicial da internet, contudo, a sua inclusão permite ilustrar como os princípios teóricos de Lévy se expressam no presente.

1. World Wide Web como dispositivo de comunicação rizomático e participativo

A World Wide Web, desenvolvida inicialmente por uma pequena equipa do CERN, tornou-se global graças à apropriação das pessoas utilizadoras, que reconheceram na Web um ambiente aberto à cooperação e à partilha de informação. A sua expansão não foi conduzida por grandes empresas, mas por comunidades da cibercultura que alimentaram e transformaram o dispositivo. A WWW concretiza os três princípios fundamentais de Lévy, ao promover interligação, comunidades virtuais e inteligência coletiva. A sua estrutura hipertextual reflete o modelo todos com todos e exemplifica o universal sem totalidade, acolhendo contributos diversos e continuamente atualizados.

2. Movimentos sociais em rede como exemplo de universal por contacto

O movimento #MeToo, por exemplo, mostra como o ciberespaço permite transformar testemunhos individuais em narrativas públicas capazes de gerar mobilização social à escala global. A partilha distribuída, sem mediação institucional tradicional, confirma a lógica comunitária e participativa identificada por Lévy. O movimento evidencia o universal sem totalidade, ao reunir pessoas de contextos distintos em torno de uma problemática comum sem apagar a diversidade das experiências. Representa igualmente o princípio todos com todos, uma vez que cada participante contribui para a construção coletiva de significado e ação, em linha com as formas de comunicação rizomática antecipadas pelo autor

3. Orçamentos Participativos como prática de democracia eletrónica

O Orçamento Participativo concretiza a relação entre ciberespaço, cidade e democracia eletrónica apresentada por Lévy. Através deste dispositivo, pessoas cidadãs propõem iniciativas, participam na definição de prioridades e acompanham decisões públicas num ambiente digital que favorece deliberação distribuída e transparência. O processo articula participação digital e intervenção no território, ilustrando princípios centrais da cibercultura, como interação comunitária, inteligência coletiva e criação cooperativa de soluções urbanas.

 

A reflexão de Pierre Lévy mostra que o ciberespaço não transforma automaticamente as sociedades, mas abre possibilidades que reconfiguram formas de comunicação, aprendizagem e participação. A cibercultura resulta da ação das pessoas e das comunidades que atribuem significado às tecnologias e constroem novos modos de cooperação, rejeitando visões deterministas e distinguindo entre universalidade e totalidade. O autor salienta que o digital não substitui o real e que muitos riscos e desigualdades já precediam as redes, embora estas amplifiquem tensões. Ainda assim, a inteligência coletiva permanece um projeto aberto, dependente da participação e da imaginação política necessárias para orientar o futuro da cultura digital.

 

Imagem criada pelo ChatGPT, com a conceção de Lévy de cibercultura e "dar as mãos à volta do mundo".

Lévy, P. (1997). Cibercultura. São Paulo, Brasil, Editora 34.