quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Reticularização e Datificação dos Processos Educativos

 




Apresento uma reflexão crítica individual, na qual retomo os vídeos analisados na UC de Educação e Sociedade em Rede e a recensão do grupo de trabalho da atividade 4, para aprofundar algumas questões que considero centrais. Esta análise procura problematizar os discursos sobre educação digital e inteligência artificial, confrontando-os com os desafios reais da equidade, do bem-estar e da responsabilidade pedagógica. Partindo dos materiais trabalhados e dos textos teóricos da UC, proponho uma leitura mais situada e reflexiva sobre o papel da educação numa sociedade em rede, assumindo uma posição crítica e pessoal, informada pelo percurso desenvolvido ao longo da unidade curricular.

Educação, tecnologia e sentido crítico numa sociedade em rede

A análise conjunta dos vídeos discutidos pelo grupo, The Machine is Us/ing Us (Wesch, 2007), Education 4.0 | Transforming the future of education (Jisc, 2019) e AI and the future of education (Plastico Film, 2023) evidencia uma preocupação comum com a adequação dos modelos educativos face às transformações tecnológicas, sociais e culturais em curso. Independentemente do foco específico de cada vídeo, emerge de forma consistente a ideia de que a educação se encontra num momento de transição, marcado pela digitalização, pela inteligência artificial e pela reorganização dos modos de produção e circulação do conhecimento.

Um primeiro eixo transversal prende-se com a crítica ao modelo educativo tradicional, fortemente influenciado por lógicas industriais de organização do ensino. A centralidade da transmissão de conteúdos, da padronização e da avaliação uniforme surge como progressivamente desajustada num contexto em que a informação é abundante, mutável e distribuída em rede, tal como é ilustrado em The Machine is Us/ing Us (Wesch, 2007), quando Michael Wesch evidencia a transição dos/as utilizadores/as, anteriormente consumidores passivos, para participantes ativos/as na construção do conhecimento online. Esta leitura converge com Tony Bates (2017), que sublinha que a transformação digital não se resume à introdução de novas tecnologias, mas implica uma revisão profunda das conceções de aprendizagem, currículo e papel docente.

Outro ponto recorrente nas análises do grupo é a reconfiguração do conhecimento enquanto processo dinâmico, relacional e situado. Aprender deixa de significar acumular informação para passar a envolver interpretação crítica, produção de sentido e capacidade de aprender ao longo da vida. Esta perspetiva articula-se com os contributos de Teixeira, Bates e Mota (2019), no âmbito do Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta, que enfatiza a aprendizagem em rede, a construção social do conhecimento e a necessidade de desenvolver competências cognitivas, sociais e éticas num ecossistema digital complexo. O vídeo Education 4.0 (Jisc, 2019) reforça esta ideia ao associar a evolução dos modelos educativos às transformações tecnológicas e às exigências de adaptação contínua.

A tecnologia e a inteligência artificial surgem, neste contexto, como mediações com potencial educativo, mas também como fontes de novos desafios. Os vídeos analisados apontam possibilidades de personalização da aprendizagem, apoio a diferentes perfis de estudantes e flexibilização dos percursos educativos, em particular em AI and the future of education (Plastico Film, 2023), onde são apresentados exemplos de tutores digitais e sistemas de apoio baseados em IA. No entanto, o grupo reconheceu que estas tecnologias não substituem a dimensão humana da educação. A relação pedagógica, o acompanhamento, o sentido crítico e a responsabilidade ética permanecem elementos centrais, em consonância com Bates (2017) e com os contributos de Teixeira, Bates e Mota (2019).

Do ponto de vista crítico, foi também sublinhado que muitos discursos sobre inovação educativa tendem a assumir um tom excessivamente otimista, por vezes pouco atento às condições reais de implementação. Questões como a desigualdade de acesso, a formação de professores e professoras, a sustentabilidade institucional e os impactos no bem-estar das pessoas aprendentes nem sempre são suficientemente aprofundadas nos vídeos. Os textos de Bates (2017) e de Teixeira, Bates e Mota (2019) ajudam a enquadrar estas limitações, ao evidenciar que a transformação educativa exige políticas públicas, regulação e uma visão sistémica que vá além da adoção tecnológica.

Em síntese, o trabalho desenvolvido pelo grupo mostra que pensar a educação numa sociedade em rede implica equilibrar inovação e prudência crítica. A tecnologia pode ampliar as possibilidades educativas, mas apenas quando integrada em projetos pedagógicos coerentes, eticamente orientados e socialmente responsáveis. Mais do que preparar para ferramentas específicas ou para profissões transitórias, a educação é chamada a formar pessoas capazes de compreender, questionar e intervir num mundo cada vez mais mediado por sistemas digitais e algorítmicos, tal como problematizado nos três vídeos analisados e aprofundado nos referenciais teóricos trabalhados na UC de Educação e Sociedade em Rede.


Referências

Bates, A. W. (2017). Educar na era digital: Design, ensino e aprendizagem. Artesanato Educacional.

Grajek, S., & EDUCAUSE IT Issues Panel. (2020). How colleges and universities are driving to digital transformation today. EDUCAUSE Review.

Jisc. (2019). Education 4.0: Transforming the future of education [Vídeo].

Plastico Film. (2023). AI and the future of education [Vídeo].

Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1), 107–126. https://doi.org/10.5944/ried.22.1.22288

Wesch, M. (2007). The machine is us/ing us [Vídeo].



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